Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo
Autor: Dr. Luis Maia | Publicado:  29/08/2012 | | |
Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo .1

Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo

Luis Maia – Professor Auxiliar da Universidade da Beira Interior
Ana Filipa Carneiro – Mestre em Psicologia e Psicóloga Hospitalar

Resumo

O estudo das diferenças no que respeita à auto – estima e ao auto – conceito em mulheres obesas, comparativamente com mulheres normativas tem sido incentivado. Procurámos investigar a existência de indicadores de maior incidência de depressão e de sintomas psicopatológicos em mulheres obesas relativamente a mulheres normativas.

Foram avaliadas 32 mulheres obesas e 32 mulheres normativas, emparelhadas por idade (± 3 anos) e escolaridade (± 3 anos), utilizando-se para tal Questionário Sócio-Demográfico, o Inventário de Avaliação Clínica da Depressão (IACLIDE) (Vaz-Serra, 1993), a Escala de Auto – Estima de Coopersmith (Coopersmith, 1989), a SCL-90 (Derogatis, 1975) e o Inventário Clínico do Auto – Conceito (ICAC) (Vaz-Serra, 1985).

Os resultados sugerem que a população obesa apresenta valores indicadores de maior incidência de sintomatologia depressiva e valores indicadores de um nível mais prejudicial de auto-conceito. Por sua vez, a população normativa apresentou valores indicadores de melhor auto-estima, bem como menor sintomatologia psicopatológica em todos os factores da SCL-90.

Discute-se assim a urgência de a população obesa necessitar de recorrer a ajuda médica e psicológica no sentido de melhorar a sua saúde física e psicológica e posteriormente a sua qualidade de vida enquanto a população normativa deve tentar prevenir a incidência da obesidade.

Palavras-Chave: obesidade, auto-estima, auto-conceito, depressão e sintomas psicopatológicos.

Obesity and psychopathology. A case control study.

Abstract

The study of differences in regards to self-esteem and self-concept in obese women, compared with normative women has been encouraged. We have tried to investigate the existence of indicators of greater incidence of depression and psychopathological symptoms in obese women when compared with normative women.

We assessed 32 women and 32 obese women regulations, matched for age (± 3 years) and education (± 3 years) and evaluated through a Socio-Demographic Questionnaire, the Inventory of Clinical Assessment of Depression (IACLIDE) (Vaz-Serra, 1993), Coopersmith Self Esteem Scale (Coopersmith, 1989), the SCL-90 (Derogatis, 1975) and the Clinical Inventory of Self - Concept (ICAC) (Vaz Serra, 1985).

The results suggest that the obese population presents indicators of a higher incidence of depressive symptomatology and indicators of negative self-concept. In turn, the normative population presented better self-esteem, as well as smaller symptomatology in all factors of two-dimensional model SCL-90.

We discusses the urgency of the obese population need to seek for medical and psychological help to improve their physical and psychological health and its quality of life while the normative population must try to prevent the incidence of obesity.

Key – words: obesity, self-esteem, self-concept, depression and psychopathological symptoms.

Contextualização

Obesidade: Historicamente o aumento de peso e o acumulo de gordura, foram vistos como sinais de saúde e prosperidade (Almeida, Loureiro & Santos, 2002). Actualmente a obesidade é considerada uma doença crónica em crianças, adolescentes e adultos (WHO, 1997 cit in Almeida, Loureiro & Santos, 2002), estando presente em países desenvolvidos ou não, não se limitando a uma região grupo racial/étnico, estatuto social etc., sendo hoje um fenómeno mundial (Bernardi, Cichelero & Vitolo, 2005).

Abraham, Carrol, Najjar and Fulwood (1983) distinguem peso excessivo (peso em relação à altura) e obesidade (um excesso de gordura corporal em relação à chamada massa magra corporal. Por conseguinte, a correlação da obesidade com o peso não é constante, podendo um excesso de peso não significar obesidade e vice-versa (Abraham et al., 1983; Sjostrom, 1993).

A obesidade é uma doença psicossomática, crónica, com causas genéticos, neuroendócrinas, metabólicas, dietéticas, ambientais, sociais, familiares e psicológicas (Felippe & Santos, 2004), atingindo principalmente a população dos 25 aos 44 anos (Francischi, Pereira & Freitas, 2000).
Na tabela 1 apresentamos os intervalos do estado nutricional de acordo com o índice de massa corporal (IMC), sendo que o mesmo se calcula através da seguinte fórmula: Peso (kg) / Altura2 (m) (Plataforma Contra a Obesidade da Direcção Geral da Saúde, 2010).

Tabela 1: Índice de Massa Corporal

Estado Nutricional - IMC (kg/m2)

Magreza - < 18.5
Peso Normal - 18.5 a 24.9
Excesso de Peso - 25.0 a 29.9
Obesidade Grau I - 30.0 a 34.9
Obesidade Grau II - 35.0 a 39.9
Obesidade Grau III - > 40

Retirado da Plataforma Contra a Obesidade da Direcção Geral da Saúde.

Esta doença é presentemente um dos maiores problemas de saúde das sociedades ocidentais, principalmente na Europa e Estados Unidos da América, associando-se a um aumento da prevalência da diabetes1-3, hipertensão, dislipidémia, hiperuricémia, litíase da vesícula, insuficiência cardíaca, acidentes vasculares cerebrais, osteoartrite e cancro do endométrio (Silva, Jorge, Domingues, Lacerda Nobre, Chambel and Jácome de Castro, 2006; Kluther & Schubert, 1985). O excesso de peso agrava algumas doenças crónicas como a asma, hipertensão e dislipidémia, doença cardiovascular, doença respiratória e alguns cancros (Silva et al., 2006).

Para além dos desequilíbrios bioquímicos e das doenças físicas, a sintomatologia e as perturbações psicológicas bem como as dificuldades ao nível da adaptação social têm contribuído significativamente para a manifestação da obesidade (Odgen, 2000).

Assim, segundo um estudo realizado no Sahlgrenska Hospital da Universidade de Goteborg, na Suécia, constatou-se que os obesos apresentavam um estado de saúde debilitado e uma diminuição humor comparativamente com indivíduos normativos, sendo mais graves nas mulheres do que nos homens (Karlsson, Sjostrom & Sullivan, 1993; Silva et al. 2006).

Provavelmente devido ao facto de sentirem a discriminação e os preconceitos na sua vida académica, social e profissional de forma clara e directa desenvolvem mais facilmente problemas clínicos e psiquiátricos tais como depressão (Goldsmith, Anger-Friedfeld, Beren, Boeck & Aronne, 1992; Maddi, Khoshaba, Persico, Bleecker & VanArsdall, 1997), transtornos ansiosos (incluindo agorafobia, fobia simples e transtorno de stress pós-traumático), transtorno de personalidade boderline, abuso de álcool, drogas, tabaco e transtornos alimentares (bulimia) (Cordas & Ascencio, 2006; Dobrow, Kamenetz & Devlin, 2002).

Assim a nível psicológico a alteração da imagem corporal provocada pelo aumento de peso poderá levar a uma desvalorização da auto-imagem e do auto-conceito, no obeso, diminuindo a sua auto-estima e auto-confiança (Bernardi et al., 2005). Em consequência disto, poderão surgir sintomas depressivos (Bernardi et al., 2005) e ansiosos, uma diminuição da sensação de bem-estar e um aumento da sensação de inadequação social, com uma consequente degradação da performance relacional (Brownell & Wadden, 1992).

No enquadramento social das sociedades actuais e modernas, a beleza física é muito valorizada e surge intimamente ligada a um ideal de corpo magro, firme e esbelto (Silva et al. 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006). Tal panorama produz no obeso, uma pressão social incómoda e uma sensação de inadequação e sentimentos de menos valia perante os padrões sociais vigentes, que poderá provocar dificuldades relacionais e, muitas vezes, um evitamento do contacto social e da realização de algumas tarefas quotidianas indispensáveis (Silva et al., 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006). Esta sensação de inadequação acompanhada de sentimentos de menos valia e de uma fuga ao social, veiculada pelo isolamento, está muitas vezes na origem de dificuldades relacionais, quer de carácter sócio-profissional, quer de carácter familiar (Silva et al. 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006).

Em Portugal, estima-se que 13,8% da população adulta apresenta obesidade (índice de massa corporal (IMC = kg/m2) ≥ 30), enquanto 52,4% manifestam excesso de peso (IMC ≥ 25) (Nobre, Macedo & Castro, 2003). Por sua vez e segundo os mesmos autores, na Europa, a prevalência da obesidade chega a afectar, em alguns países, 25% da população adulta enquanto nos EUA os valores são ainda mais elevados.



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Revista de Medicina y Ciencias de la Salud, de periodicidad quincenal, dirigida a los profesionales de la Salud de habla hispana. ISSN 1886-8924