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Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo
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Autor: Dr. Luis Maia
Publicado: 29/08/2012
 


O estudo das diferenças no que respeita à auto – estima e ao auto – conceito em mulheres obesas, comparativamente com mulheres normativas tem sido incentivado. Procurámos investigar a existência de indicadores de maior incidência de depressão e de sintomas psicopatológicos em mulheres obesas relativamente a mulheres normativas.


Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo .1

Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo

Luis Maia – Professor Auxiliar da Universidade da Beira Interior
Ana Filipa Carneiro – Mestre em Psicologia e Psicóloga Hospitalar

Resumo

O estudo das diferenças no que respeita à auto – estima e ao auto – conceito em mulheres obesas, comparativamente com mulheres normativas tem sido incentivado. Procurámos investigar a existência de indicadores de maior incidência de depressão e de sintomas psicopatológicos em mulheres obesas relativamente a mulheres normativas.

Foram avaliadas 32 mulheres obesas e 32 mulheres normativas, emparelhadas por idade (± 3 anos) e escolaridade (± 3 anos), utilizando-se para tal Questionário Sócio-Demográfico, o Inventário de Avaliação Clínica da Depressão (IACLIDE) (Vaz-Serra, 1993), a Escala de Auto – Estima de Coopersmith (Coopersmith, 1989), a SCL-90 (Derogatis, 1975) e o Inventário Clínico do Auto – Conceito (ICAC) (Vaz-Serra, 1985).

Os resultados sugerem que a população obesa apresenta valores indicadores de maior incidência de sintomatologia depressiva e valores indicadores de um nível mais prejudicial de auto-conceito. Por sua vez, a população normativa apresentou valores indicadores de melhor auto-estima, bem como menor sintomatologia psicopatológica em todos os factores da SCL-90.

Discute-se assim a urgência de a população obesa necessitar de recorrer a ajuda médica e psicológica no sentido de melhorar a sua saúde física e psicológica e posteriormente a sua qualidade de vida enquanto a população normativa deve tentar prevenir a incidência da obesidade.

Palavras-Chave: obesidade, auto-estima, auto-conceito, depressão e sintomas psicopatológicos.

Obesity and psychopathology. A case control study.

Abstract

The study of differences in regards to self-esteem and self-concept in obese women, compared with normative women has been encouraged. We have tried to investigate the existence of indicators of greater incidence of depression and psychopathological symptoms in obese women when compared with normative women.

We assessed 32 women and 32 obese women regulations, matched for age (± 3 years) and education (± 3 years) and evaluated through a Socio-Demographic Questionnaire, the Inventory of Clinical Assessment of Depression (IACLIDE) (Vaz-Serra, 1993), Coopersmith Self Esteem Scale (Coopersmith, 1989), the SCL-90 (Derogatis, 1975) and the Clinical Inventory of Self - Concept (ICAC) (Vaz Serra, 1985).

The results suggest that the obese population presents indicators of a higher incidence of depressive symptomatology and indicators of negative self-concept. In turn, the normative population presented better self-esteem, as well as smaller symptomatology in all factors of two-dimensional model SCL-90.

We discusses the urgency of the obese population need to seek for medical and psychological help to improve their physical and psychological health and its quality of life while the normative population must try to prevent the incidence of obesity.

Key – words: obesity, self-esteem, self-concept, depression and psychopathological symptoms.

Contextualização

Obesidade: Historicamente o aumento de peso e o acumulo de gordura, foram vistos como sinais de saúde e prosperidade (Almeida, Loureiro & Santos, 2002). Actualmente a obesidade é considerada uma doença crónica em crianças, adolescentes e adultos (WHO, 1997 cit in Almeida, Loureiro & Santos, 2002), estando presente em países desenvolvidos ou não, não se limitando a uma região grupo racial/étnico, estatuto social etc., sendo hoje um fenómeno mundial (Bernardi, Cichelero & Vitolo, 2005).

Abraham, Carrol, Najjar and Fulwood (1983) distinguem peso excessivo (peso em relação à altura) e obesidade (um excesso de gordura corporal em relação à chamada massa magra corporal. Por conseguinte, a correlação da obesidade com o peso não é constante, podendo um excesso de peso não significar obesidade e vice-versa (Abraham et al., 1983; Sjostrom, 1993).

A obesidade é uma doença psicossomática, crónica, com causas genéticos, neuroendócrinas, metabólicas, dietéticas, ambientais, sociais, familiares e psicológicas (Felippe & Santos, 2004), atingindo principalmente a população dos 25 aos 44 anos (Francischi, Pereira & Freitas, 2000).
Na tabela 1 apresentamos os intervalos do estado nutricional de acordo com o índice de massa corporal (IMC), sendo que o mesmo se calcula através da seguinte fórmula: Peso (kg) / Altura2 (m) (Plataforma Contra a Obesidade da Direcção Geral da Saúde, 2010).

Tabela 1: Índice de Massa Corporal

Estado Nutricional - IMC (kg/m2)

Magreza - < 18.5
Peso Normal - 18.5 a 24.9
Excesso de Peso - 25.0 a 29.9
Obesidade Grau I - 30.0 a 34.9
Obesidade Grau II - 35.0 a 39.9
Obesidade Grau III - > 40

Retirado da Plataforma Contra a Obesidade da Direcção Geral da Saúde.

Esta doença é presentemente um dos maiores problemas de saúde das sociedades ocidentais, principalmente na Europa e Estados Unidos da América, associando-se a um aumento da prevalência da diabetes1-3, hipertensão, dislipidémia, hiperuricémia, litíase da vesícula, insuficiência cardíaca, acidentes vasculares cerebrais, osteoartrite e cancro do endométrio (Silva, Jorge, Domingues, Lacerda Nobre, Chambel and Jácome de Castro, 2006; Kluther & Schubert, 1985). O excesso de peso agrava algumas doenças crónicas como a asma, hipertensão e dislipidémia, doença cardiovascular, doença respiratória e alguns cancros (Silva et al., 2006).

Para além dos desequilíbrios bioquímicos e das doenças físicas, a sintomatologia e as perturbações psicológicas bem como as dificuldades ao nível da adaptação social têm contribuído significativamente para a manifestação da obesidade (Odgen, 2000).

Assim, segundo um estudo realizado no Sahlgrenska Hospital da Universidade de Goteborg, na Suécia, constatou-se que os obesos apresentavam um estado de saúde debilitado e uma diminuição humor comparativamente com indivíduos normativos, sendo mais graves nas mulheres do que nos homens (Karlsson, Sjostrom & Sullivan, 1993; Silva et al. 2006).

Provavelmente devido ao facto de sentirem a discriminação e os preconceitos na sua vida académica, social e profissional de forma clara e directa desenvolvem mais facilmente problemas clínicos e psiquiátricos tais como depressão (Goldsmith, Anger-Friedfeld, Beren, Boeck & Aronne, 1992; Maddi, Khoshaba, Persico, Bleecker & VanArsdall, 1997), transtornos ansiosos (incluindo agorafobia, fobia simples e transtorno de stress pós-traumático), transtorno de personalidade boderline, abuso de álcool, drogas, tabaco e transtornos alimentares (bulimia) (Cordas & Ascencio, 2006; Dobrow, Kamenetz & Devlin, 2002).

Assim a nível psicológico a alteração da imagem corporal provocada pelo aumento de peso poderá levar a uma desvalorização da auto-imagem e do auto-conceito, no obeso, diminuindo a sua auto-estima e auto-confiança (Bernardi et al., 2005). Em consequência disto, poderão surgir sintomas depressivos (Bernardi et al., 2005) e ansiosos, uma diminuição da sensação de bem-estar e um aumento da sensação de inadequação social, com uma consequente degradação da performance relacional (Brownell & Wadden, 1992).

No enquadramento social das sociedades actuais e modernas, a beleza física é muito valorizada e surge intimamente ligada a um ideal de corpo magro, firme e esbelto (Silva et al. 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006). Tal panorama produz no obeso, uma pressão social incómoda e uma sensação de inadequação e sentimentos de menos valia perante os padrões sociais vigentes, que poderá provocar dificuldades relacionais e, muitas vezes, um evitamento do contacto social e da realização de algumas tarefas quotidianas indispensáveis (Silva et al., 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006). Esta sensação de inadequação acompanhada de sentimentos de menos valia e de uma fuga ao social, veiculada pelo isolamento, está muitas vezes na origem de dificuldades relacionais, quer de carácter sócio-profissional, quer de carácter familiar (Silva et al. 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006).

Em Portugal, estima-se que 13,8% da população adulta apresenta obesidade (índice de massa corporal (IMC = kg/m2) ≥ 30), enquanto 52,4% manifestam excesso de peso (IMC ≥ 25) (Nobre, Macedo & Castro, 2003). Por sua vez e segundo os mesmos autores, na Europa, a prevalência da obesidade chega a afectar, em alguns países, 25% da população adulta enquanto nos EUA os valores são ainda mais elevados.


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O aumento das taxas de obesidade é traduzido com o aumento nos custos para o sistema de saúde devido a uma maior necessidade de atendimento especializado e à incapacitação do doente (Pereira & Mateus, 2003).

Vários autores têm referido que a obesidade acarreta elevados custos económicos para a comunidade. Em Portugal, o custo directo da obesidade foi estimado em 297 milhões de euros no ano de 2002, o que representa 2,5% da despesa total em saúde. Os custos indirectos foram estimados, no mesmo ano, em 199,8 milhões de euros. A mortalidade prematura contribuiu com 58,4% deste valor e a morbilidade com 41,6%. Os resultados indicam-nos de que seria possível conceber poupanças nos serviços de saúde e ganhos na produtividade para a economia nacional usando estratégias eficazes de prevenção ou redução da obesidade (Pereira & Mateus, 2003).

O reconhecimento da obesidade como problema de saúde pública fez com que o Ministério da Saúde coloca-se em prática uma série de iniciativas nesta área, tais como o Programa Nacional de Combate à Obesidade, criado em 2005 e integrado no Plano Nacional de Saúde 2004-2010, e a Plataforma contra a Obesidade, criada em 2007 a qual integra representantes de diversos ministérios, do governo local e da sociedade civil (Pereira & Mateus, 2003).

Depressão

Em Portugal, calcula-se que, por ano, mais de 100 mil pessoas possam sofrer desta doença (valores relativos apenas à Depressão Major) (Paykel, 1991). Diversos estudos apontam para uma prevalência média deste quadro clínico, na população geral, à volta dos 5%, afectando 3% dos homens e 6% das mulheres (Paykel, 1991). A prevalência pontual da Distimia, em adultos é ligeiramente menor, situando-se por volta dos 3% (APA, 2002). Se nos focarmos apenas na presença de sintomas depressivos, a prevalência na população geral ascende de 13 a 23% (Boyd & Weissman, 1982).

Efectivamente, a incidência da depressão também é bastante significativa (Silva, 1993). Em 1993, estimava-se uma incidência anual da Depressão Major, na população mundial de 1% (Silva, 1993). Passados dez anos a literatura aponta para uma duplicação deste valor, ou seja, a taxa de incidência a nível mundial da Depressão Major andará em torno de 2,1 novos casos por cada 100 habitantes, com mais de 15 anos de idade (Ramalheira, 2003).

Deste modo, em 1981 os autores Boyd e Weissman (1982) indicaram uma probabilidade da população geral desenvolver uma depressão ao longo da vida de 8 a 12% nos homens e de 20 a 26% nas mulheres, encontrando-se efectivamente uma proporção da sua prevalência, entre homens e mulheres, de 1 para 2, respectivamente.

Deste modo, e segundo Vaz Serra (2003) a “depressão, quando se desenvolve, afecta a pessoa no seu todo. Tem repercussões psicológicas, biológicas e sociais sobre o indivíduo” (Vaz Serra, 2003).

Segundo a teoria cognitiva da depressão de Aaron Beck assente no modelo do processamento da informação, a forma como um indivíduo interpreta um acontecimento determina o modo como lhe vai responder (Beck, 1963; Beck, Rush, Shaw & Emery, 1979).

Assim, o processo cognitivo envolvido nessa interpretação pertence a um grupo mais amplo de processos cognitivos, através dos quais cada pessoa estrutura, mentalmente, o mundo, existindo três processos cognitivos específicos para explicar a etiologia da doença depressiva: a tríade cognitiva, os erros cognitivos e os esquemas cognitivos depressivogénicos (Beck, 1963; Beck et al., 1979)

Contudo, aceitamos uma limitação deste modelo na explicação do quadro depressivo, que se refere ao facto de que, apesar das cognições influenciarem o estado de humor, isso não implica que o pensamento negativo, por si só, cause depressão (Hawton et al., 1989) tendo que ser levado em conta outros factores, paciente a paciente.

Auto-Estima e Auto-Conceito

A Auto-estima e o auto-conceito são dois constructos que se correlacionam, e que não têm um modelo teórico de referência que apresente uma definição clara e concisa acerca destes dois conceitos (Fleming & Courtney, 1984; Fox, 1998). Todavia sabemos que ambos são indicadores críticos do ajustamento à vida e ao bem-estar emocional, intervindo nas diferentes formas de manifestação de um indivíduo (Marsh & Jackson, 1986; Marsh, Richards & Barnes, 1986). Efectivamente, a auto-estima e o auto-conceito influenciam o modo como os indivíduos estão motivados, persistem, alcançam e atingem os níveis de sucesso desejados nas diversas áreas da sua actividade (Fontaine, 1991).

Weiss (1987) descreve o auto-conceito como descrições, ou etiquetas, que um indivíduo concede a si mesmo, referentes a qualidades físicas, emocionais ou características do comportamento.

Por sua vez, para Arndt (1974), o auto-conceito é a percepção e concepção de uma pessoa a respeito de si própria, sendo estas percepções formadas através das experiências com pessoas significativas e com as atribuições do seu próprio comportamento. Byrne (1984) refere, assim que é a percepção de nós próprios abrangendo as nossas atitudes, sentimentos, sensações e conhecimentos sobre as nossas habilidades, capacidades, competências, aparência e aceitação social.

Vaz Serra (1986) defende assim a existência de três tipos de auto-conceito distintos: a) auto-conceito real, a forma como uma pessoa se percebe e se avalia tal como é na realidade; b) auto-conceito ideal, aquilo a que a pessoa aspira, sente que deveria, ou gostaria, de ser; e c) auto-conceito aspirado que representa aquilo que uma pessoa aspira, com uma percepção mais realista e ligada à situação das aspirações da própria pessoa.

Por sua vez, as percepções e avaliações das situações específicas são influências que se vão progressivamente organizando, podendo também falar-se em auto-conceito hierarquizado (Shavelson & Bolus, 1982). Num sentido mais abrangente, o auto-conceito global apresenta-se como estável, diminuindo essa estabilidade à medida que vai descendo na hierarquia (Shavelson & Bolus, 1982). Paralelamente ao fenómeno de socialização que vai evoluindo desde a infância até à idade adulta, também o auto-conceito com a evolução do desenvolvimento humano se vai tornando cada vez mais multifacetado (Shavelson & Bolus, 1982).

Vaz Serra (1988) refere que o constructo do auto-conceito é constituído pela auto-estima, auto-imagens, auto-eficácia, identidades, auto-conceito real e o auto-conceito ideal.

Fox (1998) é um dos autores que distingue claramente a auto-estima do auto-conceito. Para este autor, quando um indivíduo produz afirmações de identidade do tipo “sou professor” ou “sou alto”, está a utilizar uma capacidade descritiva e, como tal, refere-se ao domínio do auto-conceito. Desta forma, o auto-conceito refere-se à auto-descrição de uma pessoa, à auto-descrição de competências, atributos, traços e de papéis desempenhados na vida (Fox, 1998). Por outro lado, quando um indivíduo produz afirmações como “sou o melhor cozinheiro lá de casa”, refere-se à auto-estima, entendida como a avaliação do self (Fox, 1998).

Níveis baixos de auto-estima podem conduzir a patologias diversas, comprometendo a qualidade de vida, além de interferir nos níveis de satisfação com a vida (Alfermann & Stoll, 2000).

Sintomas Psicopatológicos

As manifestações psicopatológicas podem ser classificadas de diversas formas, orgânicas ou psicológicas, contudo optámos pelo modelo de Derogatis (1994) pela sua forte ligação às consensuais classificações do DSM e CID. Deste modo, Derogatis (1994) refere no manual da SCL-90, que as nove dimensões primárias dos sintomas psicopatológicos são as que passaremos a descrever.

A somatização (S) reflectem os distúrbios da percepção da disfunção corporal. As queixas localizam-se nos sistemas cardiovascular, gastrointestinal e respiratório (Derogatis, 1994). Por sua vez a obsessividade compulsividade (OC) focaliza-se em pensamentos, impulsos e acções que são experienciados como repetitivos e irresistíveis sendo de natureza indesejável, causando por exemplo deficit cognitivo, como dificuldades de concentração (Derogatis, 1994). A sensibilidade interpessoal (SI) está focalizada nos sentimentos de inadequação e inferioridade, especialmente na comparação com as outras pessoas. Auto depreciação, falta de auto confiança, grande desconforto durante interacções interpessoais, são as manifestações características desta síndrome. Efectivamente, os indivíduos com alta pontuação na sensibilidade interpessoal relatam auto consciência aguda e expectativas negativas sobre os comportamentos e as percepções interpessoais com os outros e de si mesmo (Derogatis, 1994). A Depressão (D) traduz-se em sinais de retraimento, de baixo interesse na vida, falta de motivação e falta de energia vital.

Além disso, engloba sentimentos de derrota, pensamentos suicidas, e outros correlatos cognitivos e somáticos da depressão (Derogatis, 1994). Na ansiedade (AN) destacamos sinais gerais como nervosismo, tensão e tremor, assim como ataques de pânico, sentimentos de terror, de apreensão e de medo (Derogatis, 1994). A hostilidade (H) reflecte pensamentos, sentimentos ou acções que são características da afectividade negativa do estado de raiva.

A ansiedade fóbica (AF) é definida como uma resposta persistente de medo dirigida a uma pessoa específica, lugar, objecto ou situação, que é irracional e desproporcional ao estímulo levando a comportamentos de fuga. A ansiedade fóbica é uma definição similar de “agorafobia” (Derogatis, 1994). Por outro lado, as ideias Paranóides (IP) são representadas fundamentalmente por comportamentos paranóides como um modo desordenado do pensamento.


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As características cardinais do pensamento projectivo, hostilidade, desconfiança, grandiosidade, centralidade, medo de perder a autonomia e desilusão são considerados os sinais primários desta desordem (Derogatis, 1994). Por fim temos o psicoticismo (P) que representa o constructo como uma dimensão contínua da experiência humana. Os itens indicados de afastamento, isolamento, estilo de vida esquizóide, foram incluídos como sendo o primeiro grau de sintomas da esquizofrenia, tais como as alucinações e pensamentos controlados por delírios (Derogatis, 1994).

Metodologia

Caracterização da amostra

O presente estudo foi constituído por uma amostra por conveniência, com 64 (100%) sujeitos de nacionalidade portuguesa, sendo 32 (50%) mulheres obesas utentes de uma unidade de saúde a usufruir de apoio psicoterapêutico emparelhadas por idade (± 3 anos) e escolaridade (± 3 anos) com 32 (50%) mulheres normativas escolhidas aleatoriamente.

Relativamente à sua caracterização sociodemográfica, apresentada no quadro 2, 64 sujeitos são do género feminino, com uma média de idades de 38,94 anos nas mulheres obesas e de 38,84 anos nas mulheres normativas.

Dos 32 sujeitos obesos, 25% (N=8) encontram-se a trabalhar na indústria, 12,5% (N=4) a trabalhar nos serviços, 43,8% (N=14) são domésticas e 18,8% (N=6) estão desempregadas. No que respeita aos sujeitos normativos, das 32 mulheres, constatamos que 15,6% (N=5) trabalham na indústria, 12,5% (N=4) no comércio, 62,5% (N=20) nos serviços e 9,4% (N=3) são domésticas.

Quadro 2: Características sócio-demográficas da amostra. 

obesidade_psicopatologia/caracteristicas_sociodemograficas

obesidade_psicopatologia/escolaridade_nacionalidade_obesas

Quanto ao estado civil, a maioria das mulheres obesas (87,5%, N=28) são casadas ou vivem em união de facto, 6,2% (N=2) são solteiras e 6,2% (N=2) são separadas/divorciadas e viúvas, com metade da percentagem para cada estado civil. Nas mulheres normativas, a maioria é casada ou vive em união de facto (62,5%, N=20), sendo 25% (N=8) solteiras, 9,4% (N=3) separadas/divorciadas e apenas 3,1% (N=1) são viúvas.

Relativamente ao nível de escolaridade da amostra, a maioria das mulheres obesas (40,6%, N=13) têm o 2º ciclo do ensino básico, 25% (N=8) o 3º ciclo do ensino básico, 18,8% (N=6), o 1º ciclo do ensino básico, 12,5% (N=4) o ensino secundário e apenas 3,1% (N=1) o ensino superior. Enquanto nas mulheres normativas a maioria (46,9%, N=15) possui o 3º ciclo do ensino básico, 28,1% (N=9) o ensino secundário, 21,9% (N=7) o 2º ciclo do ensino básico e somente 3,1% (N=1) tem o ensino superior.

Todos os sujeitos são de nacionalidade portuguesa.

No que se refere ao número de filhos, as mulheres obesas apresentam uma média de 1,69 filhos enquanto as mulheres normativas apresentam uma média de 1,59 filhos. Por sua vez, face ao peso, existe uma diferença de aproximadamente 30 quilos entre ambas as populações, sendo a média das mulheres obesas de 92,91 kg e a das mulheres normativas de 61,41 kg, que se distribuem por uma altura média de 1,59 cm nas mulheres obesas e de 1,62 cm nas mulheres normativas.

Quadro 3: Características específicas de ambas as populações 

obesidade_psicopatologia/altura_peso_flhos

Como critério de inclusão na amostra estabelecemos que a população obesa como a normativa não poderia apresentar doença física ou psiquiátrica.

Objectivo do Estudo

A oportunidade de acompanhar de perto um grupo de mulheres obesas a usufruir de apoio psicoterapêutico, suscitou em nós uma enorme vontade de averiguar se os indivíduos obesos estão mais susceptíveis ao desenvolvimento de sintomatologia depressiva e sintomas psicopatológicos bem como ao desenvolvimento de uma baixa auto-estima e um baixo auto-conceito comparativamente com a população normativa.

Tivemos, então como questão principal a seguinte: “Existem diferenças estatisticamente significativas no que se refere à sintomatologia depressiva, auto-estima tal como em relação aos sintomas psicopatológicos e o auto-conceito no que concerne às mulheres obesas comparativamente com as mulheres normativas?”

Caracterização dos Instrumentos

Questionário Sócio-demográfico: Foi elaborado para esta investigação um questionário sócio-demográfico com nove questões fechadas, acerca da idade, escolaridade, peso, altura, localidade/residência, profissão, nacionalidade, estado civil e número de filhos de cada um dos sujeitos de ambas as amostras em estudo.

Inventário de Avaliação Clínica da Depressão (Vaz Serra, 1993)

O “Inventário de Avaliação Clínica da Depressão” (IACLIDE) é um instrumento de auto-avaliação que tem como objectivo detectar a presença e a gravidade de um quadro clínico depressivo (Almeida, Simões & Gonçalves, 1995). Esta escala foi elaborada tendo como base a ideia de que uma depressão varia em função do número de sintomas assinalados e da intensidade que possam atingir (Vaz Serra, 1994), quando se responde a cada uma das 23 questões em escala de tipo Likert cujos resultado global varia entre 0 (inexistência de qualquer perturbação) e 4 (gravidade máxima atingida pela queixa), estando cada um dos sintomas subdivididos em cinco questões que traduzem uma gravidade progressivamente crescente, tendo implícita a possibilidade de uma única escolha (Vaz Serra, 1994).


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As questões do Inventário de Avaliação Clínica da Depressão (IACLIDE) dizem respeito a perturbações de quatro tipos distintos, alterações biológicas, sintomas cognitivos, modificação das relações inter-pessoais e supressão ou alteração do desempenho de tarefa (Almeida, Simões & Gonçalves, 1995). Estes quatro tipos de perturbações têm a ver com a relação que o indivíduo deprimido estabelece com o organismo, consigo próprio como pessoa, com os outros e com o trabalho (Vaz Serra, 1994).

A pontuação global obtida no inventário designa os graus de gravidade da depressão e a divisão entre não deprimido e deprimido (Almeida, Simões & Gonçalves, 1995), apresentando diferentes graus de severidade: depressão leve (indivíduo perturbado pelos sintomas, com dificuldade em continuar com o seu trabalho e actividades sociais usuais, mas não deixa de funcionar completamente), depressão moderada (o indivíduo tem normalmente uma dificuldade considerável em continuar com as suas actividades sociais, de trabalho ou domésticas) e a depressão grave (a pessoa sente-se incapaz, a não ser de forma muito limitada, em continuar com as suas actividades sociais, de trabalho ou domésticas) (Vaz Serra, 1994).

Escala de Auto-estima de Coopersmith (Coopersmith, 1989)

A Escala Auto-Estima de Coopersmith é uma tradução e adaptação do Coopersmith Self-Esteem Inventory Short Form, contendo 25 perguntas fechadas (Coopersmith, 1967).

É um instrumento com uma abordagem da auto-estima em áreas relacionais específicas da vida, onde se pretende avaliar o sentimento de si, em termos valorativos e de competência, na família e na sociedade. Assim, a soma dos itens determina indicadores de maior ou menor auto-estima (Coopersmith, 1967).

Esta escala define a auto-estima como a avaliação que o indivíduo faz, e que geralmente mantém, de si mesmo, e expressa uma atitude de aprovação ou desaprovação, indicando o grau em que se considera capaz, importante e valioso (Okazaki & Coelho, 2005) sendo uma experiência subjectiva que o indivíduo expõe aos outros por relatos verbais e expressões públicas de comportamentos (Gobitta & Guzzo, 2002).

Symptom Cheklist – 90 – SCL – 90 (Derogatis, 1975)

A Symptom Cheklist – 90 – SCL – 90, foi criada pela National Computer Systems Inc., sendo um inventário multidimensional de auto avaliação de sintomas, delineado para avaliar um vasto espectro de problemas psicológicos e sintomas psicopatológicos (Derogatis, 1994).

A Escala de Avaliação de Sintomas (SCL – 90), tal como Derogatis (1994) refere é constituída por 90 itens de auto relato que pretendem reflectir o padrão psicológico dos respondentes. Sendo que cada item deve ser respondido segundo uma escala de 5 pontos, que varia entre nenhuma manifestação até extremamente presente (Derogatis, 1994).

No que respeita aos itens da escala Derogatis (1994) menciona que compõem 9 dimensões primárias de sintomas: somatização (S), obsessividade compulsividade (OC), sensibilidade interpessoal (SI), depressão (D), ansiedade (AN), hostilidade (H), ansiedade fóbica (AF), ideias paranóides (IP) e psicoticismo (PS).

Por sua vez, os índices globais são denominados de: Índice Global de Severidade (IGS), Índice de Distúrbio de Sintomas Positivos (IDSP) e Total de Sintomas Positivos (TSP) (Laloni, 2001). Sendo que a função de cada uma destas medidas globais é transmitir numa pontuação simples o nível ou intensidade de um distúrbio psicológico de um indivíduo (Derogatis, 1994).

Por fim importa referir que a interpretação clínica do perfil obtido pela SCL-90 oferece uma diversa gama do perfil sintomático multidimensional. Contudo para a comparação com uma avaliação unidimensional é necessário a utilização apenas de uma subescala (Derogatis, 1994).

Inventário Clínico de Auto-conceito (Vaz Serra, 1985)

O Inventário Clínico de Auto – Conceito (ICAC), segundo Vaz Serra (1988) é uma escala unidimensional de tipo Likert, elaborada com o propósito de medir os aspectos emocionais e sociais do auto – conceito (Vaz Serra, 1988). É um instrumento de auto – avaliação, que exige um grau mínimo de escolaridade para ser respondido (Almeida, Simões & Gonçalves, 1995). Assim, Almeida, Simões & Gonçalves (1995) referem que esta escala procura medir a maneira de ser habitual do indivíduo e não o estado em que transitoriamente se encontra.

Deste modo e segundo o mesmo autor é um instrumento de medida que pretende avaliar aspectos emocionais e sociais do auto – conceito. Assim é constituído por 20 questões, sendo que cada uma delas é cotada de 1 (não concordo) a 5 (concordo muitíssimo), classificadas umas vezes numa ordem directa e outras, inversa, podendo a nota global ir de um mínimo de 20 a um máximo de 100 (Almeida, Simões & Gonçalves, 1995). Destacamos como vantagens o facto de ser breve e levar pouco tempo a ser respondido.

Concluímos assim, e segundo Fitts (1972), que quanto pior for o auto-conceito, pior será o ajustamento do indivíduo e mais propício estará a perturbações de cariz emocional.

Resultados

Pontuações do instrumento IACLIDE

Nos IACLIDE (quadro 4) verificou-se que 28,1% (N = 9) da população obesa apresentou valores indicadores de sintomatologia depressiva moderada, 25% (N = 8) valores indicadores de sintomatologia depressiva leve, 25% (N=8) indicadores de depressão grave e 21,9% (N=7) valores indicadores de ausência de sintomatologia depressiva. Por sua vez a população normativa não apresentou valores indicadores de sintomatologia depressiva moderada ou grave, sendo que apenas 12,5% (N = 4) apresentaram valores indicadores de sintomatologia depressiva leve.

Quadro 4: Resultados do IACLIDE 

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Relativamente aos sintomas apresentados no quadro 5 (sintomatologia depressiva), os biológicos são os mais significativos nas mulheres obesas, uma vez que 19 (59,4%) mulheres obesas apresentaram sintomas biológicos clinicamente significativos comparativamente com a maioria (96,9%, N=31) das mulheres normativas que apresentam sintomas biológicos normativos. Por outro lado, os sintomas cognitivos são maioritariamente normativos quer na população obesa (N=22; 68,8%) quer na população normativa (N=32; 100%).

Quadro 5: Resultados dos Sintomas do IACLIDE 

obesidade_psicopatologia/sintomas_biologicos_cognitivos

No que se refere aos sintomas interpessoais, 23 (71,9%) mulheres obesas e 32 (100%) das mulheres normativas apresentam sintomas normativos. Por fim temos os sintomas do desempenho da tarefa, que nos indicam que a maioria das mulheres obesas (N=19; 59,4%) e das mulheres normativas (N=32; 100%) apresentam valores indicadores de sintomas normativos.

No âmbito das incapacidades, apresentadas no quadro 6, que a sintomatologia depressiva desenvolve destacamos que no que se refere às incapacidades para a vida em geral nas mulheres obesas, metade (N=16; 50%) encontra-se ligeiramente, moderadamente e marcadamente incapacitada, enquanto 100% (N=32) das mulheres normativas encontram-se normalizadas.

Quanto às incapacidades para o trabalho 46,9% (N=15) das mulheres obesas encontram-se ligeiramente incapacitadas para o trabalho, comparativamente com 71,9% (N=23) das mulheres normativas que nos indicaram que de modo algum se encontram incapacitadas para o trabalho.


Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo .5

Quadro 6: Resultados das Incapacidades do IACLIDE 

obesidade_psicopatologia/incapacidades_vida_obesas

Na incapacidade para a vida social, os dados referem-nos que 37,5% (N=12) encontram-se moderadamente incapacitadas enquanto com os mesmos valores as mulheres normativas mencionam que se encontram de modo algum incapacitadas para a vida social.

Por último destacamos a incapacidade para a vida familiar, em que a maioria (37,5%; N= 12) das mulheres obesas referem que de modo algum se encontram incapacitadas sendo que 93,8% (N=30) das mulheres normativas referem o mesmo.

Pontuações do instrumento Escala de Auto-Estima de Coopersmith

Na Escala de Auto-Estima de Coopersmith (quadro 7) 68,8% de população obesa (N = 22) apresentaram baixa auto-estima, 21,9% (N = 7), valores indicadores de média auto-estima e somente 9,4% (N = 3) valores de elevada auto-estima.

Por sua vez na população normativa constatou-se que 75% (N =24) das mulheres evidenciaram valores indicadores de média auto-estima, 21,9% (N = 7) valores indicadores de elevada auto-estima, sendo que apenas 3,1% (N= 1) apresentam valores indicadores de baixa auto-estima.

Quadro 7: Resultados da Escala de Auto-Estima de Coopersmith 

obesidade_psicopatologia/escala_autoestima_Coopersmith

Pontuações do instrumento SCL-90

Nos resultados do instrumento SCL-90 (quadro 8) verificou-se que relativamente ao factor somatização 87,5% (N = 28), a população obesa apresenta elevada somatização comparativamente com 43,8% (N = 14) dos normativos que apresentaram baixa somatização.

Quanto ao factor obsessão do SCL-90 (quadro 8) 81,2% (N = 26) da população obesa apresentou valores elevados níveis de obsessão comparativamente com 68,8% (N = 22) da população normativa que apresentaram valores indicadores de baixos níveis de obsessão.

Quanto ao factor sensibilidade interpessoal do SCL-90 (quadro 8) 84,4% (N = 27) da população obesa apresentou elevados níveis de sensibilidade interpessoal comparativamente com 75% (N = 24) da população normativa que apresentou baixos níveis de sensibilidade interpessoal.

No factor depressão do SCL-90 (quadro 8) 84,4% (N = 27) da população obesa apresentou elevada sintomatologia depressiva e 56,2% (N = 18) da população normativa apresentou baixa sintomatologia depressiva.

Nos resultados do factor ansiedade do SCL-90 (quadro 8) 78,1% (N = 25) da população obesa apresentou elevada sintomatologia ansiógena e 65,6% (N = 21) da população normativa apresentou baixa sintomatologia.

Quanto ao factor hostilidade do SCL-90 (quadro 8) apurou-se que 81,2% (N =26) da população obesa apresentou elevados níveis de hostilidade relativamente a 75% (N =24) da população normativa que apresentou baixos níveis de hostilidade.

Quanto ao factor ansiedade fóbica do SCL-90 (quadro 8) 75% (N = 24) da população obesa apresentaram elevada sintomatologia fóbica comparativamente com 78,1% (N = 25) da população normativa que apresentou baixa sintomatologia fóbica.

Quanto ao factor ideação paranóide do SCL-90 (quadro 8) 78,1% (N =25) da população obesa apresentou valores indicadores de elevados níveis de ideação paranóide compatados com 75% (N = 24) da população normativa que apresentaram baixos níveis de ideação paranóide.

Por último, quanto ao factor psicoticismo do SCL-90 (quadro 8) 84,4% (N = 27) apresentaram elevados níveis de psicoticismo relativamente com 68,8% (N = 22) da população normativa que apresentaram valores indicadores de baixos níveis de psicoticismo.

Quadro 8: Resultados da SCL-90 

obesidade_psicopatologia/sintomas_psicopatologicos_obesas

obesidade_psicopatologia/ansiedade_hostilidade_fobia

Pontuações do instrumento Inventário Clínico de Auto-Conceito


Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo .6

Nos resultados Inventário Clínico de Auto-conceito (quadro 9) a população obesa 68,8% (N = 22) apresentou um baixo auto-conceito comparativamente com 28,1% (N =9) na população normativa. Por sua vez, 28,1% (N =9) das mulheres obesas apresentaram um elevado auto-conceito comparativamente com 68,8% (N = 22) da população normativa.

Quadro 9: Resultados do Inventário Clínico de Auto-Conceito

obesidade_psicopatologia/autoconceito_total_obesas

No que se refere à aceitação/rejeição social as mulheres obesas oscilam entre a baixa aceitação – rejeição social (50%, N=16) e elevada aceitação – rejeição social (50%, N=16), sendo que a população normativa maioritariamente (87,5%, N=28) apresenta elevada aceitação – rejeição social.

Face à baixa eficácia, a maioria (71,9%, N=23) da população obesa considera que tem uma baixa auto-eficácia em contraste com 93,8% (N=30) da população normativa que se encontra dividida com igual percentagem entre uma baixa auto-eficácia e uma elevada auto-eficácia.

No caso da maturidade psicológica e auto-afirmação a maioria das mulheres obesas (46,9%, N=15) e a maioria das mulheres normativas (62,5%, N=20) consideram que têm uma elevada maturidade psicológica e auto-afirmação.

Por último, na impulsividade e actividade a maioria das mulheres obesas (75%, N=24) considera que tem baixa impulsividade e actividade, contrariando a maioria das mulheres normativas (56,2%, N=18) que referem ter elevada impulsividade e actividade.

Diferenças de médias entre instrumentos

Tendo como base as análises Teste – T verificaram-se diferenças estatísticas bastante significativas (quadro 10) no que se refere à sintomatologia depressiva (IACLIDE) (t = 6,705; p <0,05; p = 0,000), sintomas biológicos (IACLIDE) (t = 7,429; p <0,05; p = 0,000), sintomas cognitivos (IACLIDE) (t = 6,107; p <0,05; p = 0,000), sintomas interpessoais (t = 4,026; p <0,05; p = 0,000), sintomas desempenho de tarefa (IACLIDE) (t = 5,192; p <0,05; p = 0,000), incapacidade para a vida em geral (t = 6,264; p <0,05; p = 0,000), incapacidade para a vida social (t = 6,421; p <0,05; p = 0,000), incapacidade para a vida familiar (t = 5,246; p <0,05; p = 0,000) e auto-estima (t = - 5,735; p <0,05; p = 0,000).

Por sua vez, no que se refere ao SCL-90 também se apuraram diferenças estatísticas bastante significativas (quadro 8) nos factores somatização (t = 6,029; p <0,05; p = 0,000); obsessão (t = 6,365; p <0,05; p = 0,000); sensibilidade interpessoal (t = 7,857; p <0,05; p = 0,000); depressão (t = 8,033; p <0,05; p = 0,000); ansiedade (t = 7,786; p <0,05; p = 0,000); hostilidade (t = 7,360; p <0,05; p = 0,000); ansiedade fóbica (t = 4,945; p <0,05; p = 0,000); ideação paranóide (t = 6,608; p <0,05; p = 0,000); e psicoticismo (t = 6,554; p <0,05; p = 0,000).

No que se refere ao Inventário Clínico de Auto-Conceito constataram-se diferenças estatísticas bastante significativas no total (t = - 4,122;p <0,05; p = 0,000) e na aceitação – rejeição social (t = - 3530; p <0,05; p = 0,001). Não existindo diferenças estatísticas significativas no que concerne à auto-eficácia, maturidade psicológica – auto-afirmação e impulsividade e actividade.

No que se refere ao Inventário Clínico de Auto-Conceito constataram-se diferenças estatísticas bastante significativas no total (t = - 4,122;p <0,05; p = 0,000) e na aceitação – rejeição social (t = - 3530; p <0,05; p = 0,001). Não existindo diferenças estatísticas significativas no que concerne à auto-eficácia, maturidade psicológica – auto-afirmação e impulsividade e actividade.

Portanto todas as dimensões que não foram anteriormente referidas apresentam diferenças estatisticamente significativas.

Quadro 10: Médias, desvios padrões e diferenças de médias entre os vários instrumentos nas duas populações em estudo. 

obesidade_psicopatologia/medias_desvios_padroes

Discussão dos Resultados

Neste estudo o principal objectivo era verificar se existiam diferenças estatisticamente significativas nos indicadores de sintomatologia depressiva, na auto-estima, no auto-conceito e nos sintomas psicopatológicos entre a população obesa e a população normativa.

Deste modo, constatou-se que a população obesa no que respeita à sintomatologia depressiva apresentou maior incidência da mesma, sendo que 28,1% (N = 9) das mulheres obesas apresentaram valores indicadores de sintomatologia depressiva moderada (as mulheres obesas têm uma dificuldade considerável em continuar com as suas actividades sociais, de trabalho ou domésticas) e 50% (N=16) das mulheres obesas sintomatologia depressiva leve e grave (as mulheres obesas sentem-se incapazes, a não ser de forma muito limitada, em continuar com as suas actividades sociais, de trabalho ou domésticas) com metade da percentagem para cada intervalo. Por sua vez a maioria (87,5%, N=28) da população normativa não apresenta valores indicadores de sintomatologia depressiva.

No que se refere aos sintomas biológicos, os mesmos são clinicamente significativos nas mulheres obesas (59,4%, N=19) em comparação com as mulheres normativas (3,1%, N=1). Deste modo as mulheres obesas apresentam dificuldades ao nível da retenção da informação, concentração bem como em adormecer e ter um sono reparador, acabando por acordando várias vezes durante a noite. Ao nível dos sintomas cognitivos, interpessoais e desempenho da tarefa ambas as populações apresentam sintomas normativos. Verificamos que há diferenças estatisticamente significativas entre os indicadores de maior incidência de sintomas clinicamente significativos causados pela depressão nas mulheres obesas comparativamente com as mulheres normativas da amostra, uma vez que somente os sintomas biológicos são clinicamente significativos nas mulheres obesas, estando os sintomas cognitivos, interpessoais e de desempenho da tarefa normativos em ambas as populações.


Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo .7

Ao nível das incapacidades, constatamos que para a vida em geral a maioria de ambas as populações se encontra maioritariamente de modo algum incapacitada, sendo que para o trabalho a maioria (46,9%, N=15) população obesa manifesta-se ligeiramente incapacitada no que respeita à fatigabilidade no desempenho de tarefas, sendo que a população normativa se encontra de modo algum incapacitada. Na incapacidade para a vida social a maioria da população normativa (37,5%, N=12) encontra-se mais uma vez de modo algum incapacitado contrastando com a maioria da população obesa (37,5%, N=12) que se encontra moderadamente incapacitada. Por fim na incapacidade para a vida familiar a maioria (37,5%, N=12) da população obesa manifesta se de modo algum incapacitada, o mesmo acontece com a maioria (93,8%, N=30) da população normativa. Há também diferenças estatisticamente significativas entre os indicadores de maior incidência de incapacidades causadas pela incidência da depressão nas mulheres obesas comparativamente com as mulheres normativas da amostra), uma vez que as mulheres obesas só se encontram incapacitadas para o trabalho e para a vida social.

A maior incidência de sintomatologia depressiva e o aumento de incapacidades nas mulheres obesas pode dever-se ao facto desta população apresentar um estado de saúde debilitado que faz com que experienciem uma diminuição do bom humor, alterações do sono, comprometimento da memória e concentração bem como anedonia e sensações de falta de esperança (Karlsson, Sjostrom & Sullivan, 1993; Silva et al., 2006).

Segundo Cardoso (1998) o papel da mulher obriga-a a responder às necessidades dos outros e é talvez esta vulnerabilidade feminina responsável por parte substancial do seu stress psicológico. Deste modo, as mulheres não são só sensíveis em relação a elas, mas também em relação a tudo o que as rodeia. Freudenberg (1997) refere que as mulheres são mais susceptíveis ao síndrome de Burnout e por sua vez mais susceptíveis à sintomatologia depressiva, já que terão de enfrentar a uma variedade de tarefas domésticas e familiares complementares ao seu trabalho. Assim, as mulheres mais do que os homens são afectadas emocionalmente pelas suas experiências de elevado stress mas também pelas experiências dos outros.

Os estudos epidemiológicos para além de terem demonstrado que a depressão é duas vezes mais comum na mulher do que no homem, também evidenciaram, haver diferença na sua manifestação e curso. Outros estudos epidemiológicos, levados a cabo nos Estados Unidos por Kornstein (1997) demonstraram que ao longo da vida, a depressão na mulher é de 21,3% enquanto nos homens é de 12,7%.

Segundo Russel (1997) as mulheres têm um risco de desenvolver depressão de 20% a 25% e são mais afectadas que os homens, que têm um risco durante a vida de 7% a 12%.

Verificámos diferenças significativas na incidência de maiores indicadores de sintomatologia depressiva nas mulheres obesas comparativamente com as mulheres normativas da amostra, e tal é corroborado pelo estudo de Tosetto & Júnior (2008) que comparam mulheres sedentárias e não sedentárias no que respeita à obesidade, sintomas de depressão, ansiedade e desesperança, que verificaram a presença de níveis maiores de depressão em pacientes obesas.

Por sua vez, no que respeita à auto-estima verificou-se que a população obesa apresenta maioritariamente valores indicadores de baixa auto-estima (68,8%, N = 22), sendo que na população normativa maioritariamente apresenta valores indicadores de média auto-estima (75%, N = 24). Assim as mulheres obesas avaliam negativamente as suas qualidades e os seus desempenhos, expressando desaprovação de si mesmas e considerando-se inadequadas. Estes resultados podem ser explicados pela alteração da imagem corporal provocada pelo aumento de peso que poderá levar a uma desvalorização da auto-imagem e do auto-conceito, nas mulheres obesas, diminuindo a sua auto-estima e auto-confiança (Bernardi, Cichelero & Vitolo, 2005), e por sentirem a discriminação e os preconceitos na sua vida académica, social e profissional (Goldsmith et al., 1992; Maddi et al., 1997).

Podemos assim compreender que a auto-estima da mulher ocidental reflecte o efeito de uma forte influência social agindo como fonte de possíveis desajustamentos ou de conflitos interpessoais, com repercussões na sua imagem corporal e na sua saúde mental. Níveis baixos de auto-estima podem conduzir a patologias diversas, comprometendo a qualidade de vida, além de interferir nos níveis de satisfação com a vida (Alfermann & Stoll, 2000).

No que se refere ao auto-conceito, através da análise dos resultados confirmámos as diferenças estatísticamente significativas entre a incidência de indicadores de menor auto-conceito das mulheres obesas comparativamente com as mulheres normativas da amostra, uma vez que 68,8% (N = 22) das mulheres da população obesa apresentaram valores indicadores de baixo auto-conceito, enquanto na população normativa, as mulheres apresentaram maioritariamente valores indicadores de um elevado auto-conceito (68,8%, N = 22). Assim as mulheres obesas oscilam entre a baixa aceitação – rejeição social (50%, N=16) e elevada aceitação – rejeição social (50%, N=16), sendo que a população normativa apresenta maioritariamente (87,5%, N=28) elevada aceitação – rejeição social. Assim percebemos que a população obesa considera que não passa uma boa imagem aos outros uma vez que tem um consequente feedback negativo daquilo que transmite.

Por sua vez a maioria (71,9%, N=23) da população obesa considera que tem uma baixa auto-eficácia em contraste com 93,8% da população normativa que se encontra dividida com igual percentagem entre uma baixa auto-eficácia e uma elevada auto-eficácia. Assim quer a população obesa quer a normativa têm uma percepção negativa do seu desempenho nas várias situações.

No caso da maturidade psicológica e auto-afirmação a maioria das mulheres obesas (46,9%, N=15) e a maioria das mulheres normativas (62,5%, N=20) consideram que têm uma elevada maturidade psicológica e auto-afirmação. Na impulsividade e actividade a maioria das mulheres obesas (75%, N=24) considera que tem baixa impulsividade e actividade, contrariando a maioria das mulheres normativas (56,2%, N=18) que referem ter elevada impulsividade e actividade.

As mulheres obesas têm tendência a distorcer o seu tamanho corporal, a serem mais insatisfeitas, preocupadas com sua aparência pessoal bem como apresentarem falta de confiança em si mesmas e dificuldades em expressar de forma simbólica a sua imagem corporal influenciando assim negativamente o seu auto-conceito (Cordas & Ascencio, 2006; Almeida, Loureiro e Santos, 2002).

Assim as reacções e atitudes da sociedade em relação à obesidade reflectem-se nas reacções e atitudes das pessoas obesas, que tendem a fazer auto-declarações depreciativas em relação a si próprios e a apresentarem um auto-conceito comprometido (Barlow, 1999).

No SCL-90 verificou-se no factor somatização que a maioria das mulheres obesas apresentaram valores indicadores de elevada sintomatologia somática (87,5%, N = 28), enquanto na população normativa 56,2% (N = 18) apresentaram valores indicadores de baixa sintomatologia somática. Tais resultados estão associados a um aumento da incidência de alterações endocrinológicas, artrite de mãos e joelhos, doenças de vesícula biliar, apneia do sono, alterações dos lipídeos sanguíneos, alterações da coagulação, alguns tipos de neoplasias, dor na coluna lombar, joelho e tornozelo/pé (Bray, 1996; Bjorntorp, 1998;). Lecerf (1996) do Serviço de Nutrição da Universidade de Lille (França), fizeram uma avaliação de todo o país, ou seja, 18 102 pacientes com índice de massa corporal IMC> 25 kg/m2, sendo 66,8% mulheres e 33,2% homens, com idade média de 48,0 anos (variando de 34 a 62 anos) e IMC médio de 34,6 (variando de 28,5 a 40,7), sem diferenças acentuadas entre os dois sexos. As queixas mais frequentes eram dor na coluna (44,6%), hipertensão (44,2%), colesterol alto (39,9%), artrose no joelho (30,8%), edema nas pernas (24,3%), suores exagerados (23,8%), micose nas dobras da pele (22,8%) e diabetes (21,6%).

No factor obsessão a população obesa apresentou na grande maioria valores indicadores de elevados níveis de obsessão (81,2%, N = 26), relativamente à população normativa que por sua vez apresentou maioritariamente valores indicadores de baixos níveis de obsessão (68,8%, N = 22). As mulheres obesas focalizam-se mais em pensamentos, impulsos e acções que são experienciados como repetitivos e irresistíveis sendo de natureza indesejável acabando por manifestar dificuldades de concentração (Derogatis, 1994).

No factor sensibilidade interpessoal a população obesa apresentou na sua grande maioria valores indicadores de elevados níveis de sensibilidade interpessoal (84,4%, N =27), comparativamente com 75% (N = 24) da população normativa que apresentou valores indicadores de baixos níveis de sensibilidade interpessoal. Tais resultados explicam o facto da população obesa apresentar desconforto nas interacções interpessoais, evitando muitas vezes o contacto social (Silva et al. 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006). Focalizam-se em sentimentos de inadequação e inferioridade, especialmente quando se comparam com as outras pessoas, manifestando auto depreciação e falta de auto confiança (Drogatis, 1994).

No factor depressão a população obesa apresentou na sua maioria elevada sintomatologia depressiva (84,4%, N = 27), comparativamente com 56,2% (N = 18) da população normativa que apresentou baixa sintomatologia. Esta incidência de depressão traduz-se em retraimento, baixo interesse na vida, falta de motivação e falta de energia vital (Derogatis, 1994).

No que se refere ao factor ansiedade neste estudo apuramos que na população obesa a sua maioria apresentou elevada sintomatologia ansiógena (78,1%, N = 25), relativamente à população normativa que na sua maioria apresentou baixa sintomatologia ansiógena (65,6%, N = 21). Estes resultados vão ao encontro dos que foram apurados por Bray (1992) e Wadden e Sternberg (1999) que mencionam que a população obesa que procura tratamento passa por uma elevada prevalência de sintomas psicológicos ansiosos, alimentares e depressivos.

Por sua vez no factor hostilidade a população obesa apresentou maioritariamente elevado nível de hostilidade (81,2%, N = 26), enquanto a população normativa apresentou indicadores de baixo nível de hostilidade (75%, N = 24). Podemos assim referir que a população obesa vivencia com muito mais intensidade irritabilidade e ressentimento (Derogatis, 1994).


Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo .8

No factor ansiedade fóbica, apuramos que na população obesa metade das mulheres apresentou elevada sintomatologia fóbica (75%, N = 24), enquanto na população normativa a maioria das mulheres apresentaram baixa sintomatologia fóbica (78,1%, N = 25). A população normativa não vivência tanto respostas persistentes de medo dirigida a uma pessoa específica, lugar, objecto ou situação, que é irracional e desproporcional ao estímulo levando a comportamentos de fuga comparativamente às mulheres obesas (Derogatis, 1994).

No que se refere ao factor ideação paranóide verificamos que na população obesa a maioria apresentou elevados níveis de ideação paranóide (78,1%, N = 25), comparativamente com 75% (N = 24) da população normativa que apresentou baixos níveis de ideação suicida. Assim as mulheres obesas mostram maior desconfiança e medo de perder a autonomia (Derogatis, 1994).

Por fim, no factor psicoticismo, averiguamos que na população obesa a grande maioria apresentou valores indicadores de elevados níveis de psicoticismo (84,4%, N =27), relativamente a 68,8% (N=22) da população normativa que apresentou baixos níveis de psicoticismo. Estes resultados são reforçados pelo que foi anteriormente referido no que respeita às mulheres obesas tenderem mais ao isolamento e afastamento (Derogatis, 1994).

Deste modo, verificámos existirem diferenças estatisticamente significativas entre incidência de indicadores de maior sintomatologia psicopatológica nas mulheres obesas comparativamente com as mulheres normativas da amostra, uma vez que a população obesa em todos os factores pontuou com maior incidência de sintomatologia psicopatológica.

Os resultados supramencionados vão ao encontro do estudo de Ferreira e colaboradores que em 1995 utilizaram a SCL-90 no serviço de endocrinologia do Instituto Português de Oncologia de Lisboa para avaliar senhoras com excesso de peso recente e senhoras normativas comparando o mesmo com medidas endócrinas. Os resultados indicaram que existiram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos em relação a todos os sintomas do SCL-90.

Tendo como base as análises Teste – T verificaram-se diferenças estatísticas bastante significativas no que se refere à sintomatologia depressiva (IACLIDE) (t = 6,705; p <0,05; p = 0,000), sintomas biológicos (IACLIDE) (t = 7,429; p <0,05; p = 0,000), sintomas cognitivos (IACLIDE) (t = 6,107; p <0,05; p = 0,000), sintomas interpessoais (t = 4,026; p <0,05; p = 0,000), sintomas desempenho de tarefa (IACLIDE) (t = 5,192; p <0,05; p = 0,000), incapacidade para a vida em geral (t = 6,264; p <0,05; p = 0,000), incapacidade para a vida social (t = 6,421; p <0,05; p = 0,000), incapacidade para a vida familiar (t = 5,246; p <0,05; p = 0,000) e auto-estima (t = - 5,735; p <0,05; p = 0,000).

Por sua vez, no que se refere ao SCL-90 também se apuraram diferenças estatísticas bastante significativas (quadro 8) nos factores somatização (t = 6,029; p <0,05; p = 0,000); obsessão (t = 6,365; p <0,05; p = 0,000); sensibilidade interpessoal (t = 7,857; p <0,05; p = 0,000); depressão (t = 8,033; p <0,05; p = 0,000); ansiedade (t = 7,786; p <0,05; p = 0,000); hostilidade (t = 7,360; p <0,05; p = 0,000); ansiedade fóbica (t = 4,945; p <0,05; p = 0,000); ideação paranóide (t = 6,608; p <0,05; p = 0,000); e psicoticismo (t = 6,554; p <0,05; p = 0,000).

No que se refere ao Inventário Clínico de Auto-Conceito constataram-se diferenças estatísticas bastante significativas no total (t = - 4,122;p <0,05; p = 0,000) e na aceitação – rejeição social (t = - 3530; p <0,05; p = 0,001). Não existindo diferenças estatísticas significativas no que concerne à auto-eficácia, maturidade psicológica – auto-afirmação e impulsividade e actividade.

Importa ainda referir que foram encontradas correlações estatisticamente significativas entre a depressão e a auto-estima (correlação negativa), depressão e auto-conceito (correlação negativa), depressão e sintomas psicopatológicos (correlação positiva), auto-estima e auto-conceito (correlação positiva), auto-estima e sintomas psicopatológicos (correlação negativa) e auto-conceito e sintomas psicopatológicos (Correlação negativa).

No enquadramento social das sociedades actuais e modernas, a beleza física é muito valorizada e surge intimamente ligada a um ideal de corpo magro, firme e esbelto (Silva et al. 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006).

Tal panorama produz no obeso, uma pressão social incómoda e uma sensação de inadequação e sentimentos de menos valia perante os padrões sociais vigentes, que poderá provocar dificuldades relacionais e, muitas vezes, um evitamento do contacto social e da realização de algumas tarefas quotidianas indispensáveis (Silva et al. 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006). Esta sensação de inadequação acompanhada de sentimentos de menos valia e de uma fuga ao social, veiculada pelo isolamento, está muitas vezes na origem de dificuldades relacionais, quer de carácter sócio-profissional, quer de carácter familiar (Silva et al. 2006; Felippe & Santos, 2004; Cordas & Ascencio, 2006).

Assim no que se refere ao tratamento desta patologia destacamos a mudança dos hábitos alimentares, a medicação, a dieta, a actividade física ou mesmo a cirurgia (Pollock & Wilmore, l993). Contudo, o sucesso do tratamento é frequentemente limitado e transitório, pelo que a prevenção é a maneira mais eficaz de controlar esta verdadeira epidemia (Coelho et al., 2008).

Tendo em vista os factores cognitivos e emocionais associados ao aumento do consumo de alimentos a mudança comportamental tem sido usada no tratamento da obesidade. A auto-monitorização faz parte do programa da mudança comportamental e consiste na auto-observação dos factos, sentimentos, pensamentos e atitudes que ocorrem antes, durante e após as tentativas de manter um comportamento prudente ao alimentar-se e na prática de exercícios físicos (Foreyt & Goodrick, 1993).

Segundo Atckinson (1992), os componentes de um programa de mudança comportamental incluem: educação sobre a etiologia e a fisiopatologia da obesidade; educação alimentar, nutricional e novas técnicas dietéticas; educação através da fisiologia do exercício, estratégias, técnicas e monitorização da actividade física; conhecimento de estratégias para evitar novamente o ganho de gordura; apoio familiar, social e acompanhamento por uma equipa multidisciplinar de profissionais de saúde.

Para além de se delinear estratégias de intervenção eficazes também é necessário acabar com a presença de atitudes e estereótipos negativos em relação à obesidade por parte de médicos e demais profissionais de saúde. Além do primeiro aspecto, há outros aspectos de grande importância: a percepção dessas atitudes e desses estereótipos por parte do paciente obeso faz com que ele não procure ajuda adequada à sua condição; os médicos podem estar menos interessados em tratar pacientes com excesso de peso, acreditando que são pessoas com pouca força de vontade e que menos provavelmente beneficiarão de aconselhamento (WHO, 1997).

Wadden e Sternberg citam um estudo no qual 80% dos pacientes de cirurgia bariátrica relataram ter sido sempre ou quase sempre tratados desrespeitosamente pela classe médica devido ao excesso de peso (Wadden e Sternberg, 1999).

Tudo o referido anteriormente deve fazer-nos pensar acerca desta problemática.


Conclusões

As principais conclusões retiradas deste estudo são:

- A população obesa apresenta incidência de maiores indicadores de sintomatologia depressiva comparativamente com a população normativa;

- A população obesa manifesta maior incidência de sintomas clinicamente significativos causados pela depressão em relação às mulheres normativas da amostra, nomeadamente no que se refere aos sintomas biológicos. Nos sintomas cognitivos, interpessoais e desempenho da tarefa ambas as populações apresentam sintomas normativos;

- A população obesa manifesta indicadores de maiores incapacidades clinicamente significativas causadas pela depressão comparativamente com as mulheres normativas. Sendo que nas incapacidades para a vida geral e familiar a população obesa não se encontra de modo algum incapacitada, nas incapacidades para o trabalho encontra-se ligeiramente incapacitada e nas incapacidades para a vida social moderadamente incapacitada. Contrastando com a população normativa que em todas as incapacidades refere que se encontra de modo algum incapacitada;

- A população obesa apresenta indicadores de menor auto-estima comparativamente com as mulheres normativas da amostra;

- A população obesa manifesta incidência de maior sintomatologia psicopatológica comparativamente com as mulheres normativas da amostra. No que se refere a todos os factores do SCL-90, ou seja, somatização, obsessão, sensibilidade interpessoal, depressão, ansiedade, hostilidade, ansiedade fóbica, ideias paranóides e psicotiscismo;

- A população obesa demonstra indicadores de menor auto-conceito relativamente às mulheres normativas da amostra. Ao passo que a população obesa também refere que tem baixa auto-eficácia e baixa impulsividade e actividade. Contudo demonstram ter elevada maturidade psicológica e auto-afirmação e oscilam entre elevada e baixa aceitação/rejeição social.


Obesidade e psicopatologia. Um estudo de caso – controlo .9

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